Você está tomando cuidado com o "super homem/mulher" dentro de você?



“Tome cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais”. Sócrates.


Na semana passada, com uma dor de dente que cheirava mais um problema de canal (pareço uma parabólica velha), fui correndo para um atendimento de emergência.

Entre uma radiografia e outra, vi que uma colega acompanhava o jovem dentista, que, como um veterano mentor, ia dando indicações durante minha "estadia" na cadeira.

Com o diagnóstico na mão, veio a sentença:

- Não era canal, apenas uma cárie funda que precisava obturar. Solução rápida.

Feliz com minha sorte, enquanto a broca, lentamente, "massacrava" minha masculinidade hetero-alpha, divagava em pensamentos mórbidos o quanto aquele ruído incessante e dolorido do século XIX (sabia que a broca elétrica foi inventada em 1875), escuto a colega, com pinta de estagiária, fazer uma pergunta sobre o horário de almoço, como funcionava, coisa e tal.

Com a resposta dada que em outro momento sequer ligaria, naquela hora, acendeu meus alertas vermelhos de uma vez só.

Entre um ruído e outro da "invenção secular", escuto o dentista com a cara mais limpa do mundo, com uma empáfia digna de um pavão macho as vésperas do acasalamento dizer :

- Sugiro que faça seu horário entre as consultas. Eu almoço em 15 minutos e volto para atender o próximo paciente.

Oi??!! O paciente era eu?? Como assim?? Pensei assustado.

Para conspirar mais ainda contra meu terror, que nascia, olho para ele, tento me livrar daquele sugador de saliva horroroso, ansioso para saber, se tinha sido eu o próximo "paciente dos 15 minutos", mas sua insistência em me pedir paciência venceu minha vontade.


Para piorar, estava eu, presenciando os olhos vermelhos de sono e bocejos constantes do dentista, dentro da minha boca provavam claramente que seu burnout já se mostrava maior que a sua resistência.

Fiquei delirando com os cenários possiveis do meu repentino pesadelo. Triste destino.

E também, por todos aqueles que passaram pela minha carreira de 35 anos no universo corporativo, que enchiam o peito para dizer "hoje não deu tempo nem para almoçar", como se isso fosse uma vitória digna de um super herói que fazem questão de mostrar e dizer com o peito cheio...Sou o cara.

E quantos médicos, advogados, enfermeiros, estagiários, secretárias e todos os tipos de profissionais, atletas, empreendedores, magnatas não passaram ou passam aquilo que popularmente, dentro daqueles neologismos que importamos dos gringos e a duras penas e assimilamos com estalar da língua:

- Burnout.

Que atire a primeira pedra "quem nunca" passou dezenas de horas extras ou não, para atingir uma determinada meta ou entregar aquele relatório para "diretoria" que era para ontem.

É que com toda tecnologia, informação, recursos, Google (para se preparar??pode isso??), nos comportamos como se estivéssemos nas primeiras eras da Revolução industrial, onde o segredo era trabalhar, se possível 18 ou 20 hs sem parar .

É completamente nonsense. Bizarro.

Para que tantos recursos, se um simples almoço, se torna um inconveniente corporativo ou obstáculo da produtividade e meta?

Quanto a mim, restou a certeza de pagar a conta e nunca mais voltar a esse consultório.

Uma pena.

E meu dente? Bom, doeu mais 3 dias....Aguentei firme!

Até a próxima.

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